Intolerância gratuita

É bem provável que, em algum momento da vida, você tenha se deparado com alguma pessoa com quem a convivência era difícil. Sabe aquela pessoa que você diz bom dia, mas que responde “só se for para você” e ainda sai resmungando frases como “odeio gente bem-humorada de manhã”? Ou, então, alguém que tinha tolerância próxima ao zero absoluto com opiniões diferentes à sua?

Pois bem, essa pessoa é intolerante. Mas, afinal, o que faz alguém ser assim? Vamos lá: uma pessoa com tal comportamento não tem habilidade ou vontade para lidar com diferentes crenças e opiniões, age de modo hostil e até mesmo agressivo  – o famoso “ganhar no grito”, e diz que aquele é o jeito dela mesmo. “A pessoa, desde pequena, já demonstra alguns traços de personalidade, geralmente quando reage às situações de contrariedade. Essas reações podem estar relacionadas à impulsividade, falta de respeito com sua opinião sobre algum aspecto ou situação, não tendo flexibilidade de ampliar e entender o ponto de vista de outra pessoa”, explica Sidneia Freitas, psicóloga e neuropsicóloga. Logo, não é difícil entender que a intolerância tem relação com o preconceito e, assim, pode levar à discriminação em diversos âmbitos, como sobre orientação sexual, gênero, etnia, classe social, religiosa, entre outras.

Causa e efeito: sejamos francos – não é pecado discordar sobre determinado fato ou opinião, até porque cada indivíduo passou por uma construção pessoal específica. Mas há maneiras e maneiras para fazê-lo, por mais que gatilhos clássicos, como trânsito intenso, filas intermináveis e falta de comprometimento de algum funcionário para resolver algum problema, o coloquem no limite emocional. Todos nós em algum momento perdemos a paciência, o problema é quando isso é freqüente. “Algumas pessoas têm comportamento irritadiço e bravo muitas vezes para tentarem se proteger de possíveis situações que avaliam como ameaças, enquanto muitos têm personalidade mais rígida e acreditam que são donos da razão”, ressalta Liliana Seger, coordenadora do grupo de TEI (Transtorno Explosivo Intermitente).

Em sociedade: quando a pessoa não agüenta conviver com situações que julga não ter como controlar, esse tipo de postura pode evoluir, em casos extremos, para fobia social. Por exemplo, ela evita estar em filas, e chega antes da hora aos compromissos e locais diversos, para não se submeter a situações que lhe causem aflição.

Por outro lado, a intolerância com minorias sociais, como homofobia, racismo ou xenofobia, está relacionada à história de vida da pessoa, no que diz respeito à educação recebida, vivência e aspectos que resultaram em sua crença básica. Ou seja, a construção pessoal. “Obviamente, uma pessoa tem suas intolerâncias muitas vezes baseadas na estrutura de personalidade, história de vida, educação e conhecimentos – ou a falta deles”, destaca Liliana. Não é exagero dizer que o desconhecimento sobre determinado assunto ou aspecto é, sim, combustível para o intolerante. E isso tende a induzir a pessoa a ter idéias preconcebidas sobre o objeto da fobia, em situações extremas, ainda mais pelo fato de se recusar a aceitar outro ponto de vista alheio ao seu, o que resulta em postura violenta. “Esse contexto fortalece a idéia de pertencimento de filiação a determinado grupo em detrimento a outro grupo, como brancos e negros, ou homossexuais e heterossexuais, entre outros”, pontua Sidneia.

Lidando com a intolerância: você é daquele tipo de pessoa que perde a paciência com tudo no dia a dia, até mesmo com uma mensagem no WhatsApp que demora a chegar? Que tal pensar e analisar sobre o que faz a irritação ir às alturas? Vá lá que alguma situação seja absurda ao ponto de te tirar do sério, mas será que vale a pena perder a razão e, assim, passar de certo a errado? Isso sem contar que quanto mais uma pessoa briga, mais ela se desgasta emocionalmente – e fisicamente também, como conseqüência. E, claro, não é possível ser feliz desse modo. Já ao conviver com uma pessoa intolerante, não é possível viver nos extremos. Logo, não é recomendável agir com passividade e “engolir a seco” a raiva, ou lidar de igual para igual com uma pessoa que tenha esse perfil. Então, por que não esperar a poeira baixar para conversar com ela? “Caso seja um indivíduo com transtorno de personalidade fica mais difícil lidar. Deve-se sugerir em um momento neutro, nunca na hora da discussão, que ela pense em procurar uma ajuda profissional. Quando você vê como é a vida da pessoa intolerante e raivosa, você verá que ela tem uma péssima qualidade de vida e acaba muitas vezes desenvolvendo doenças como gastrite, úlcera, entre outras, por ficar sempre alerta aos erros alheios”, completa Liliana Seger.

Contudo, a pessoa deve dar o primeiro passo para, ao menos, conter o seu estilo intolerante. “Para isso acontecer, a pessoa precisa reconhecer essas atitudes e essa característica pessoal como disfuncionais e maléficas para outros, além de querer estar comprometido para essa mudança de comportamento”, finaliza Sidneia Freitas.

Fonte: Revista Weekend.

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