Leitura amplia o universo infantil

Um em cada quatro pré-escolares é identificado por pais ou professores com problemas de fala ou com dificuldade de linguagem, o que sugere que essas situações são altamente prevalentes nos primeiros anos de vida. Para algumas crianças, as deficiências de fala e linguagem continuam depois que entram na escola, trazendo uma série de dificuldades de aprenderem a ler, escrever, focar a atenção e concentração e fazer cálculos. Além disso, essas crianças têm prejuízos na comunicação, a mobilidade, no autocuidado, nas relações informais com amigos e colegas, nos relacionamentos com pais e irmãos, e na capacidade de manter e terminar um trabalho. Todos esses problemas estão relacionados com o baixo desenvolvimento dos circuitos neuronais, das conexões e da mielinização responsáveis pela linguagem, que ocorrem no primeiro ano de vida. E, para estimular esse desenvolvimento, pediatras e especialistas em educação afirmam que há um recurso fundamental: a leitura.

O cérebro somente se desenvolve a partir das trocas com o meio ambiente, e o estímulo à leitura e escrita desde cedo promove grandes modificações sinápticas, fundamentais para muitos dos processos desenvolvimentais e cognitivos que se sucederão na infância, como atenção, memória e funções executivas. Além disso, desperta para o interesse na aquisição de novos conhecimentos, implementação dos valores sociais, disciplina, criatividade e discernimento crítico. A importância da leitura se faz em diversos âmbitos do desenvolvimento, tanto físico como mental, psicológico e social. “A leitura, assim como a escrita, são poderosos marcadores culturais, e sua presença no mundo atual é determinante para a qualidade de vida. Vendo os pais lerem, ouvindo histórias e aprendendo a ler, a criança adentra aos valores e saberes do meio que a circunda e adquire um poderoso instrumento que lhe permite tornar-se autônoma e capaz”, acentua a especialista em Psicopedagogia Irene Maluf. O desenvolvimento de vocabulário receptivo é um componente do sistema de linguagem humana, que se forma no primeiro ano e está em expansão ao longo da vida. Começando na infância, o vocabulário receptivo se constrói com a linguagem e leitura para formação de habilidades orais. “Ler regularmente para crianças pequenas estimula o desenvolvimento do cérebro nos padrões ideais e fortalece as relações entre pais e filhos em uma fase crítica do desenvolvimento infantil, construindo a linguagem, a alfabetização e as habilidades sociais e emocionais que duram a via toda”, ensina a médica pediatra Filumena Gomes. Pesquisas mostram que a leitura em voz alta para crianças pequenas estimula a linguagem e as habilidades cognitivas, motiva e desperta a curiosidade e a memória. “A leitura em voz alta é reconhecida como a única e mais importante atividade que conduz ao desenvolvimento da linguagem. Ler em voz alta desenvolve a consciência da palavra-som em crianças, que é um preditor potente do sucesso do aprendizado da leitura”, argumenta a médica. Outro fator importante é a consciência que a criança terá a respeito das regras que fazem parte dos padrões sonoros específicos de sua própria língua. Essa consciência facilitará o aprender a ler na idade escolar e também ligada à facilidade de aprendizado de novas línguas mais tarde. Ao contrário, crianças que iniciam a escola com dificuldade de fala e linguagem, em geral, convivem com insucesso escolar, o que pode aumentar o risco de absenteísmo, abandono da escola, delinquência juvenil, uso de drogas e gravidez na adolescência, perpetuando os ciclos de pobreza e dependência. “A linguagem oral tem um papel crucial no desenvolvimento da criança e vai significar, mais tarde, a alfabetização, a educação e o emprego”, acrescenta a pediatra Filumena. Como a capacidade de leitura e escrita não é inata, o aprendizado da criança deve realmente acontecer cedo na forma de estimulação de competências, como saber ouvir, ter discernimento, focar e memorizar. Apesar de as bases para o sucesso na vida escolar – e adulta, por conseguinte – serem construídas desde idades muito precoces, a educadora Irene Maluf lembra que a alfabetização deve acontecer quando a criança tiver alcançado um patamar de desenvolvimento neurológico que lhe permita aprender sem prejuízo a outras atividades igualmente importantes, como é o caso da brincadeira. “Nos países mais desenvolvidos em termos de educação, como na Finlândia, o estímulo à leitura é feito de modo muito natural até os sete anos de idade, quando então as crianças começam a ser alfabetizadas. Portanto, o ideal é estimular com leitura, brincadeiras e jogos, e deixar a educação formal para os seis anos em diante”, orienta.

Até sem palavras: a linguagem que uma criança pequena utiliza ao brincar é formada de gestos, movimentos e mímicas, tanto quanto de palavras. Por isso, ao ler para uma criança pequena o adulto interpreta a leitura, faz mímica facial e gesticula, modela a voz e, com isso, a criança vai aprendendo a reproduzir a situação, aumentar o vocabulário e, posteriormente, relacionar a leitura e sua mímica a situações e palavras que farão a ligação com a leitura e a linguagem escrita. Assim, a criança pequena estará pronta para ser alfabetizada aos seis anos, enquanto que aquela que não tiver esse estímulo terá mais dificuldades durante esse processo de aprendizagem da íngua e da escrita. Crianças pequenas precisam de histórias curtas com linguagem simples e muitas ilustrações, e é importante que o adulto saiba interpretar a história e leia com vivacidade, encenando para  despertar o interesse. Ouvir os pais lerem, é diferente de a criança ouvir televisão, rádio, músicas ou outra pessoa falar, porque há um tipo de entonação diferente na leitura. O contato social, a afetividade e uma diversidade de assuntos também estimulam a cognição. “Há ainda, o desenvolvimento do vocabulário: hoje, muitas crianças estão presas aos eletrônicos, demoram para falar e têm vocabulário restrito para a idade. Isso prejudica muito a alfabetização”, acentua Irene.

Desde bem cedo: as estruturas responsáveis pela audição começam a se desenvolver nas primeiras semanas de gravidez e, por volta da 14ª semana, o feto já escuta os sons internos do corpo materno. Em seguida, começa a ouvir a voz da mãe e identifica se está calma o nervosa. Cientistas afirmam que a leitura é uma forma de estimulação auditiva para o bebê e instiga o desenvolvimento neuronal, além do envolvimento afetivo com a mãe. Por isso, a orientação é ler para os filhos desde a gestação. A Sociedade Brasileira de Pediatria e a Academia Americana de Pediatria recomendam que pediatras estimulem a leitura para crianças de até cinco anos, informando aos pais que isso pode melhorar o relacionamento e preparar a mente das crianças para melhor aprender competências linguísticas e desenvolver a alfabetização com sucesso.

 

Fonte: Super Saudável

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