Alcoolismo Feminino

O alcoolismo é uma dependência química crônica caracterizada pelo consumo compulsivo de álcool. De acordo com a OMS – Organização Mundial da Saúde – alcoolismo é uma doença e, como ta, deve ser tratada e prevenida, pois mata direta ou indiretamente, cerca de 3,3 milhões de pessoas em todo o mundo.

A entidade relata que, no Brasil, o consumo de álcool é de 8,7 litros por pessoa ao ano, 40% maior do que a média mundial. Os dados apontam que nos últimos anos o número de pessoas do sexo feminino que consomem álcool aumentou 34,5%, especialmente entre as adolescentes com idade entre 14 e 17 anos.

A psicóloga Sandra Regina Gonzaga Mazutti, terapeuta cognitiva comportamental e mestre em Ciências da Saúde, explica que os efeitos do álcool podem ser mais devastadores no corpo da mulher, se comparado com os homens, por questões hormonais. “O uso abusivo do álcool pode afetar a produção hormonal feminina, levando à diminuição da menstruação e à infertilidade. Na medida em que a dependência avança, as repercussões sobre o corpo, não só da mulher como também do homem, se agravam. Os órgãos mais atingidos são o cérebro, o trato digestivo, o coração, os músculos, o sangue e as glândulas hormonais. A maioria dos casos de pancreatite aguda (75%) é provocada  pelo uso problemático de álcool. As afecções sobre o fígado pode ir de uma simples degeneração gordurosa à cirrose, que é um processo irreversível e incompatível com a vida”, informa a especialista.

O alcoolismo como fuga X vida familiar

Sandra diz que múltiplos fatores estão associados ao uso de bebida alcoólica e as motivações que contribuem para as mulheres se tornarem alcoólatras. Com frequencia, começam com fatores situacionais específicos, tais como: “problemas de relacionamento interpessoais, conjugais, com a família, amigos, pressão do grupo social, violência doméstica, conflitos pessoais, fuga de problemas, busca pelo prazer e por alternativa de vida, perdas, desemprego, luto por morte, separação conjugal, partida dos filhos e a existência de predisposição genética”, detalha.

Para ela, o álcool, a princípio, proporciona uma sensação de euforia e bem-estar e até mesmo de poder que, momentaneamente, representa solução para todos os problemas. Com a mulher assumindo cada vez mais novos papéis e responsabilidades, que seja na família ou no trabalho, as dificuldades a que são submetidas também mudam. A doença alcoólica que, aparentemente, é algo individual, acaba afetando as relações sociais, profissionais e afetivas. Estudos indicam que o universo feminino está cada vez mais sensível ao uso de álcool, em virtude das mudanças ocorridas no seu estilo de vida. “Mas, existem outros fatores, chamados de predisponentes, que são ambientais, culturais, bem como os fatores psicológicos individuais. O problema acaba afetando a todos ao redor, em especial a família, de maneira devastadora”, afirma.

A dificuldade em admitir-se alcoólatra

Para Sandra, a pessoa envolvida no problema geralmente não procura ajuda. Muitas vezes por vergonha e, também, por não se considerarem doentes. “Os tabus sociais, a estigmatização e a cultura são alguns dos fatores que dificultam a procura por tratamento, pois há ainda o desconhecimento de que o uso problemático de álcool e outras drogas é uma questão de saúde. Há também dificuldades em relação ao local de tratamento, pelo acolhimento no equipamento de saúde, pelo profissional que a recebe e pela proposta de tratamento oferecida. De acordo com estudos, 2% das mulheres com problemas relacionados ao álcool procuram tratamento, contra 8% dos homens”, esclarece.

Tratamento

 O sucesso de um tratamento antialcoolismo depende muito da vontade da própria pessoa em querer se recuperar. Contudo, nem sempre ela tem condições de pensar nesta possibilidade, fazendo-se necessário o auxílio de terceiros.

O doente pode encontrar ajuda gratuita no AA – Alcoólicos Anônimos, grupo que reúne homens e mulheres, que cooperam mutuamente para se recuperarem do alcoolismo. Outros tratamentos são oferecidos pelo SUS – Sistema único de Saúde – e no CAPS AD – Centro de Atenção Psicossocial Álcool e  outras Drogas, envolvendo equipes multidisciplinares. “Esse projeto tem por base o tratamento do paciente em liberdade, buscando sua reinserção social. O planejamento terapêutico é traçado dentro de uma perspectiva individualizada de evolução contínua. Tanto em clínicas particulares quanto nos CAPS AD, há acompanhamento semanal, em grupo, pela equipe multidisciplinar do equipamento de saúde, que pode contar com psicólogos, psiquiatras, terapeutas ocupacionais, farmacêuticos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, educadores físicos e assistentes sociais, entre outros, além da equipe administrativa”, informa Sandra. A profissional diz ainda que na terapia cognitivo-comportamental, que pode ser feita em consultórios particulares de psicologia, busca-se criar uma aliança com o paciente. “Geralmente, a pessoa chega ao consultório estigmatizada negativamente pelo meio em que vive, em conflito com a família, amigos e o meio social no qual está inserida. Acolhemos com uma escuta qualificada de suas queixas e sentimentos, livre de pré-julgamentos. E, assim, estabelece-se  um vínculo baseado na confiança, para posteriormente trabalharmos a conscientização da doença. É através da relação terapêutica e a conceitualização de casos que a terapeuta pode entender a dor e o medo por trás da hostilidade e resistência do paciente. É essencial explorar o significado e função das ações aparentemente oposicionistas e autodestrutivas, bem como manter o foco em metas de longo prazo, ao invés de buscar recompensas  imediatas”, conclui.

 

Fonte: RG – Revista de Guarulhos

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